Capítulo 1 – O Inimigo em Comum

CAPÍTULO I: O Inimigo em Comum

Foi difícil para o Grande Mestre dormir naquela noite. Antes de se

recolher aos seus aposentos, ele teve de despachar alguns Cavaleiros para

diferentes localidades, a fim de realizarem missões específicas. O Grande

Mestre estava sentado em seu trono, em silêncio, quando o som de passos

começa a ecoar em sua sala, despertando-o do seu estado de concentração.

Uma jovem belíssima vinha em direção a ele. Os olhos dela eram negros e

brilhantes, ostentando um olhar doce e resoluto. Seus longos cabelos

trançados estavam presos à nuca, e sua pele morena, da cor das amêndoas,

contrastava com o alvíssimo branco de suas vestes. Ao aproximar-se do

Grande Mestre, este saiu do trono e prostrou-se de joelhos na frente da

menina.

– Sagrada Atena, o que faz fora de sua câmara de repouso?

– Estava preocupada com o senhor, e resolvi vir vê-lo. Percebi uma estranha

movimentação no Santuário, e fiquei sabendo que alguns Cavaleiros

foram enviados em missões confidenciais. Poderia me explicar o que está

acontecendo?

– Naturalmente que sim, Atena.

A voz do Grande Mestre, embora firme, transparecia preocupação,

e suas mãos, cuja pele clara e levemente rugosa refulgia à luz do sol que

adentrava pelas janelas, contraíram-se em um claro sinal de nervosismo.

– Chame-me de Sara, esse é meu nome. – protestou a menina.

Um riso leve escapou dos lábios do Grande Mestre, e ele respondeu em

um tom paternal.

– Eu já lhe disse outras vezes, Sara: o seu nome de nascença não é mais

importante do que o seu nome real, o nome do espírito divino que habita em

seu corpo. Você é a reencarnação de Atena, e deve atender por este nome,

mesmo que prefira o primeiro, entendeu?

– Sim. Mas, agora me diga: o que está acontecendo?

O líder do Santuário, após perceber que a jovem Atena não tomaria

assento no trono, levantou-se e dirigiu-se até ele. Então ele fez uma longa

pausa, contemplando as cortinas carmesim que vedavam parte das janelas, e

então sentou-se no trono. Mirou o chão por alguns segundos, ao que se

sucedeu um breve suspiro, e ele começou a falar.

– Antes de mais nada, é essencial que você saiba que os deuses gregos não

são os únicos existentes no mundo. Embora algumas divindades recebam

nomes diferentes em outras culturas, há uma variedade grande de deuses

que protegem e governam o mundo. Tendo lhe explicado isso, ficará mais fácil

compreender o que vou dizer agora.

“Há milhares de anos, quando Zeus ainda reinava poderoso no Olimpo, houve

um grande problema entre os deuses. Alguns deles reclamavam que os

homens estavam sendo mais amados e protegidos do que o necessário, e

que os homens não estavam correspondendo a isso como deveriam. O maior

responsável por esses desentendimentos era um Anjo, um dos guardiões

do Deus dos hebreus. Esse Anjo era chamado de Lúcifer, que significa “o

portador da luz”. Ele recebeu esse nome porque irradiava uma poderosa luz

de seu corpo, e tão grande eram sua beleza e seus conhecimentos que ele

era comparado a alguns dos deuses, e a muitos ele superava em poder e

esplendor.”

“Aconteceu, então, de Zeus e YHVH, o Deus dos hebreus, se irritarem

profundamente com algumas ações dos homens, e terem jurado não interferir

abertamente no que aconteceria com eles. Assim, Atena assumiu a chefia

do que pertencia ao seu pai, Zeus, e Yeshua (também chamado de Jesus),

assumiu a parte que pertencia ao seu pai, YHVH. Como se sabe, Atena teve de

enfrentar Posseidom, Hades e Ares inúmeras vezes para garantir o domínio da

Terra, mas nem de longe esse foi o maior problema dela.”

“Antes de se iniciarem os confrontos entre eles, Lúcifer resolveu agir

abertamente, agora que YHVH não estava mais interferindo. Sendo o mais

poderoso dos Anjos, e uma das mais poderosas criaturas divinas que já

existiram, Lúcifer aliciou outros Anjos, bem como deuses de diferentes

panteões. O exército de Lúcifer contava com um terço das potências divinas,

e a batalha que se seguiu foi sem precedentes. Miguel, o líder dos Anjos, não

foi páreo para o poderoso Lúcifer, e foi derrotado rapidamente. Foi então que

Yeshua entrou em combate direto, mas tão grande era o poder do seu opositor

que ele teve de pedir auxílio. Foi então que Atena se juntou a ele e, juntos, eles

conseguiram derrotar Lúcifer e deter a rebelião por ele causada.”

“Os deuses e Anjos que haviam se juntado a ele foram esconjurados do

mundo divino, e passaram a ser denominados apenas como daimons, ou seja,

espíritos comuns. Porém, mesmo exilados do plano celeste, eles continuaram

agindo com maldade, e embora a palavra daimon não indique se esse espírito

é bom ou mau, logo começou-se a associar a palavra apenas com o mau,

e o termo demônio surgiu como uma oposição ao termo Deus. Você me

compreendeu até aqui, Atena?”

A jovem assentiu brevemente com a cabeça, e seu rosto expressava

tanto interesse quanto preocupação. O Grande Mestre prosseguiu.

– Como eu dizia, Lúcifer foi derrotado, mas seu espírito não podia ser destruído.

Atena e Yeshua decidiram, então, aprisioná-lo no mais oculto e negro local do

Hades, muito além do Érebo. Esse local chamava-se Infernum, significando,

literalmente, as profundezas. Antes de ser aprisionado, Lúcifer predisse que um

dia ele seria libertado e que, quando isso acontecesse, ele iria eliminar Atena e

Yeshua, pois nem os homens e nem os deuses são dignos do mundo que ele

pretendia dominar. Já no inferno, Lúcifer manifestou seu poder, e conseguiu

influenciar levemente nas ações dos homens.

“Então sucederam-se as muitas Guerras Santas entre Atena e outras

divindades do mundo grego, ao mesmo tempo em que Yeshua descia à Terra

tentando passar uma mensagem de amor diretamente aos humanos. Ele

teve de se sacrificar para isso, e mesmo assim não alcançou seu intento.

Glorificado, ele juntou-se ao seu pai, e aguarda o dia em que deverá se

manifestar novamente. Sendo assim, a Terra ficou entregue por completo aos

cuidados de Atena, e ela tem reencarnado frequentemente quando sente que

há um grande perigo aproximando-se.”

“Nessa Era, Sara, você é a reencarnação de Atena, e veio para enfrentar um

novo inimigo. Porém, dessa vez não será nem Hades, nem Posseidom, nem

Ares. Se meus presságios estiverem corretos, alguém está tentando libertar

Lúcifer, e está sendo bem sucedido, pois está prestes a libertar o maior dos

capitães de seus exército: Baal. Se Lúcifer chegar a ser libertado, e ele retomar

o seu poder total, será praticamente impossível que possamos derrotá-lo

sozinhos. Por esse motivo, enviei emissários à Roma, onde fica o Santuário

dos Cristãos. Em breve, o líder deles deverá vir ao Santuário de Atena, e então

planejaremos uma ação conjunta para impedir esse inimigo, que é com certeza

o pior de todos os tempos. Você compreendeu a gravidade da situação?”

A jovem hesitou por alguns instantes, e então ergueu sua cabeça,

olhando para a luz que penetrava no salão. Embora fosse um dia quente, com

um forte Sol brilhando no exterior do Santuário, Sara sentia um arrepio

percorrer seu corpo. Tentando manter seu tom de voz o mais calmo possível,

ela perguntou ao Grande Mestre.

– Então…então quer dizer que uma nova Guerra Santa começou? Quer dizer

que todos os Cavaleiros que protegem Atena…que me protegem – corrigiu-se

ela depois de uma breve menção de interrupção do Grande Mestre – terão de

arriscar as suas vidas? Até mesmo o…

– Sim, Atena. Até mesmo o seu irmão terá de arriscar a vida para protegê-la.

– Mas ele é só um Cavaleiro de Bronze! – protestou ela, tremendo inteiramente.

– Um Cavaleiro de Bronze que jurou protegê-la, Atena. E seria muito

vergonhoso para Ícaro se ele soubesse que você não queria que ele se

arriscasse por você. O nome dele e a sua constelação protetora, Pégasus, tem

algo de similar: as asas. Isso significa liberdade, vontade, espirituosidade.

Ao dizer isso, o Grande Mestre levantou-se, caminhou em direção a

Atena e ajoelhou-se. Ele retirou seu elmo. Seus longos cabelos brancos

pendiam-lhe sobre os ombros, ainda fortes e firmes, emoldurando seu rosto

belo e rugoso, porém com olhos viva e jovialmente vivos, de um castanho

profundo. Ele exibiu um sorriso sincero e doce, como o de um pai que quer

acalmar um filho, por saber o que se passa em sua mente. A seguir, ele

pousou gentilmente sua mão no ombro da jovem, e Sara sentiu como se um

mar de tranqüilidade brotasse em seu corpo.

– Deixe-o voar para onde ele quiser – disse o Grande Mestre -, deixe-o ser livre

para decidir o que ele quer fazer. Eu sei que você o ama, mas deve temer por

igual pela vida de todos os que lhe protegem, tenham vocês laços sanguíneos

ou não. Agora, Atena, acho que seria melhor se você se recolhesse em sua

câmara até a hora do almoço. Concorda?

Ela assentiu com a cabeça e, com um sorriso pálido, se despediu do

líder do Santuário. Ele acompanhou com os olhos enquanto ela se afastava, e

não pode deixar de pensar em quanto sangue jovem teria de ser derramado

em mais uma Guerra Santa.

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